Título: A Morte Feliz
Autor: Albert Camus
Editora: Best Bolso
Páginas: 176
Resumo do livro A Morte Feliz
A Morte Feliz é um romance de Albert Camus, escrito entre 1936 e 1938, mas publicado apenas postumamente em 1971. A obra é considerada um esboço inicial para O Estrangeiro, e muitos estudiosos observam nela o embrião das ideias que Camus iria desenvolver mais tarde sobre o absurdo e a busca da felicidade. Através da história de Patrice Mersault (nome semelhante ao protagonista de O Estrangeiro), Camus explora o desejo de viver uma vida autêntica, livre e plenamente consciente, mesmo diante da inevitabilidade da morte.
A Morte Feliz – História
Patrice Mersault, protagonista de A Morte Feliz, é um homem ordinário que leva uma vida previsível e desinteressante, até ser confrontado com a possibilidade de ruptura. Essa ruptura ocorre através de Zagreus, um personagem que representa o homem consciente da infelicidade que o mundo lhe impõe. Zagreus, paralisado fisicamente, mas intelectualmente lúcido, expressa a Mersault a necessidade de “ser feliz custe o que custar”. O assassinato de Zagreus por Mersault, embora aparentemente frio, é carregado de um simbolismo existencial: a eliminação da figura que reconhece a infelicidade, mas é incapaz de agir sobre ela. Ao matá-lo, Mersault rompe com a passividade e assume o controle do próprio destino.
Após o crime, Mersault utiliza o dinheiro herdado para abandonar sua rotina e partir em uma série de viagens que o afastam do mundo burguês e do trabalho compulsório. Ele busca uma existência mais livre, onde possa experienciar o tempo, o silêncio e a natureza sem as imposições sociais. Durante esse percurso, ele mergulha em momentos de contemplação e solidão, percorrendo espaços físicos e internos, tentando alcançar uma vida onde o tempo não seja escravizante, mas um aliado. Seu retorno final à casa em frente ao mar simboliza a última etapa dessa jornada: uma vida reduzida ao essencial, em comunhão com o corpo, a paisagem e a consciência plena da morte.
“Tenha certeza de que não se pode ser feliz sem dinheiro. Só isso. Não gosto nem da facilidade, nem do romantismo. Gosto de compreender. Pois bem, reparei que em certas pessoas de elite há uma espécie de esnobismo espiritual em acreditar que o dinheiro não é necessário à felicidade. É bobagem, está errado e, de certa forma, é covardia.”
A narrativa culmina na aceitação da própria morte como parte inevitável e serena do ciclo da vida. Mersault morre de forma calma e lúcida, tendo conquistado aquilo que buscava: não uma felicidade eufórica ou idealizada, mas uma paz íntima construída sobre a liberdade e a compreensão do absurdo. Sua morte é “feliz” porque não o surpreende; ela é acolhida como parte da plenitude da vida vivida com intenção e autonomia.
Um dos eixos centrais de A Morte Feliz é a ideia de que a felicidade não é um dado externo ou uma dádiva da sociedade, mas uma construção pessoal. Mersault rejeita o conforto da rotina burguesa e a ilusão de que o prazer está nos bens ou no sucesso social. Ele percebe que a verdadeira felicidade exige ruptura, escolha e enfrentamento. Seu gesto inicial de matar Zagreus pode ser interpretado como o início dessa autonomia: uma metáfora para o rompimento com a resignação. A felicidade, em Camus, não é compatível com a passividade – ela exige um movimento ativo de apropriação da própria existência.
“Há dias em que gostaria de estar no lugar dele. Mas, às vezes, é preciso mais coragem para viver do que para se matar.”
Outro tema essencial é o tempo, tratado por Camus não como um fluxo abstrato, mas como algo concreto, que pode ser possuído ou que pode possuir o indivíduo. Mersault deseja controlar seu tempo, vivê-lo com intensidade, longe do tempo cronometrado do trabalho. Ao se afastar da cidade e do emprego, ele busca recuperar o tempo “natural”, ligado ao corpo, ao sono, à luz do sol. Essa liberdade temporal é condição para uma vida autêntica – sem ela, o homem vive uma vida alienada, cronometrada por estruturas que o afastam de si mesmo.
A morte, como em toda a filosofia de Camus, é o fundo sobre o qual se desenha o sentido da vida. Em A Morte Feliz, a morte não é encarada como um fim abrupto, mas como uma presença constante que dá forma às escolhas. Ao aceitar sua finitude, Mersault encontra serenidade. Essa lucidez diante do absurdo da existência – o fato de que a vida não tem um sentido transcendente – não o leva ao desespero, mas à liberdade. A felicidade é possível não apesar da morte, mas justamente porque ela impõe urgência e clareza à vida. Por fim, Camus ressalta o papel do corpo e da natureza como âncoras da experiência humana. A felicidade de Mersault está ligada ao sol, ao mar, aos sons e ritmos do mundo natural. É uma filosofia da presença, dos sentidos, do aqui e agora.
A Morte Feliz – Conclusão
A jornada de Patrice Mersault em A Morte Feliz é a de um homem que tenta construir sua própria existência com lucidez e autonomia. Ao invés de aceitar uma vida imposta por convenções sociais, ele busca ativamente uma forma de ser que faça sentido diante da certeza da morte. Seu percurso é o de alguém que não nega o absurdo, mas age diante dele, recusando o consolo fácil das falsas promessas de felicidade exterior. Mersault é o arquétipo do homem camusiano que escolhe a ação, mesmo sabendo da ausência de sentido último.
Embora inacabado, o romance já contém os elementos que Camus desenvolverá em suas obras posteriores. Ele marca a transição entre um Camus ainda tocado por ideias vitalistas – influenciado por Nietzsche e o hedonismo mediterrâneo – e o pensador do absurdo, que se consolidará em O Estrangeiro e O Mito de Sísifo. A Morte Feliz é, nesse sentido, uma chave de leitura importante para entender o processo de amadurecimento filosófico do autor. No fim, a “morte feliz” de Mersault é inseparável de uma vida vivida com coragem e lucidez. É a morte de quem não esperou um sentido externo, mas construiu uma forma pessoal de existir, enfrentando o mundo com consciência plena de sua finitude. Em Camus, essa é talvez a maior vitória possível: morrer sem arrependimento, por ter escolhido viver.
Como morrer feliz? Isto é, como viver feliz a tal ponto que a própria morte seja feliz?
“Para um homem bem nascido, ser feliz é assumir o destino de todos, não com a vontade de renúncia, mas com a vontade de felicidade. Para ser feliz, é preciso tempo, muito tempo. A felicidade também é uma longa paciência. E quem nos rouba o tempo é a necessidade de dinheiro. O tempo se compra. Ser rico é ter tempo para ser feliz quando se é digno de sê-lo.”
De Albert Camus já publicamos:
Acompanhe o blog também no Instagram, Facebook, Youtube e Spotify
Se você chegou até aqui e gostou da resenha, adquira a obra através do link abaixo e apoie o Resumo de Livro.
Compre na Amazon
Para mais resenhas como essa, acesse: Resumo de Livro
Até a próxima!