Anna Kariênina
Anna Kariênina

Anna Kariênina

Título: Anna Kariênina

Autor: Liev Tolstói

Editora: Abril

Páginas: 750

Resumo do livro Anna Kariênina

Publicado entre 1875 e 1877, Anna Kariênina é considerado uma das maiores realizações da literatura universal. Mais do que um romance sobre adultério e tragédia, a obra de Liev Tolstói é um retrato multifacetado da sociedade russa do século XIX, onde os dilemas morais, sociais e existenciais se entrelaçam com rara profundidade. Em meio a uma aristocracia em transformação, marcada pelo contraste entre a vida urbana e o campo, pela rigidez das convenções sociais e pelas tensões morais que moldam as escolhas individuais.

Anna Kariênina – História

A história se inicia em Moscou, na casa de Stiepan Oblonski, funcionário público que enfrenta uma crise conjugal após a esposa, Dolly, descobrir uma traição. A reconciliação parece improvável, mas Stiepan deposita suas esperanças na chegada de sua irmã, Anna Kariênina, uma mulher elegante e respeitada na alta sociedade de São Petersburgo. Paralelamente, Kitty, irmã mais nova de Dolly, precisa escolher entre dois pretendentes: o reservado e idealista Liévin, ligado à vida no campo, e o sedutor oficial Alexei Vronski, símbolo do prestígio militar e do encanto urbano. Convencida de que Vronski lhe fará uma proposta, Kitty recusa Liévin.

Anna chega a Moscou e, com sua sensibilidade, consegue suavizar o ressentimento de Dolly, reabrindo o caminho para o perdão ao marido. No baile, Anna e Vronski se conhecem e são tomados por uma atração imediata. Vronski, que até então cortejava Kitty, passa a dedicar-se inteiramente a Anna, deixando Kitty humilhada. Esse encontro desencadeia um conflito interno para Anna, casada com o influente Alexei Karênin e mãe de um menino, mas presa a um casamento respeitável, embora frio. Ao retornar a São Petersburgo, Anna tenta retomar a vida normal, mas Vronski, decidido, embarca no mesmo trem, determinado a seguir esse amor.

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”

Anna e Vronski cedem ao desejo e vivem um romance que rompe definitivamente as barreiras da convenção. Anna engravida e, num gesto de franqueza, revela ao marido que ama outro homem. A reação de Karênin é marcada por calculismo: não demonstra ciúmes, apenas informa que tomará medidas para evitar o escândalo, mais preocupado com a própria reputação do que com a vida emocional da esposa. Ao mesmo tempo, Kitty viaja para a Europa em busca de cura para sua tristeza. Em uma estação de águas, conhece novas pessoas e dedica-se a ajudar uma família pobre e doente, descobrindo um sentido diferente para sua vida. Liévin, no campo, mantém a rotina agrícola, mas se agita interiormente ao saber que Kitty não se casou e está debilitada.

Tolstói, então, volta o olhar para as reflexões de Liévin sobre o trabalho rural e as relações entre proprietários e camponeses. Ele busca maneiras de tornar essa convivência mais justa, mas percebe que as desigualdades estão profundamente enraizadas. Em São Petersburgo, Karênin exige que Anna mantenha as aparências, mesmo grávida de Vronski, para proteger a imagem pública da família. Contudo, quando Vronski ousa aparecer na casa dos Karênin, o marido rompe o equilíbrio artificial e decide pelo divórcio, não por indignação, mas como medida pragmática. Vronski, embora disposto a desafiar as normas para viver com Anna, começa a sentir o isolamento social que essa escolha impõe.

“Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fôra até ali.”

Tolstói constrói um mosaico de contrastes: o amor impulsivo e arriscado de Anna e Vronski contraposto ao amadurecimento lento e moral de Kitty e Liévin; o formalismo estéril de Karênin frente à vida emocional intensa que ele rejeita; a artificialidade da aristocracia urbana frente à aspiração de uma vida mais autêntica no campo. 

Após dar à luz a filha fruto de sua relação com Vronski, Anna é tomada por uma grave febre e fica à beira da morte. Nesse momento de fragilidade extrema, ela pede para ver o marido, Alexei Karênin. Diante da possibilidade de perder a esposa, Karênin abandona sua frieza habitual e, num gesto surpreendente, perdoa tanto a traição quanto a humilhação pública que sofreu. Decide desistir do divórcio e estende a benevolência também a Vronski, que presencia a cena tomado por vergonha e impotência. Para Vronski, a generosidade inesperada de Karênin é insuportável. Sentindo-se derrotado e humilhado, ele tenta tirar a própria vida, mas sobrevive. Enquanto isso, Anna se recupera fisicamente, mas a convivência com o marido após o perdão lhe pesa ainda mais do que antes. 

Paralelamente, Liévin e Kitty finalmente se reencontram. Depois de superarem mágoas e desentendimentos passados, ele a pede em casamento. Kitty aceita, e os dois começam os preparativos para a nova vida juntos — uma união que, no contraste com a história de Anna e Vronski, parece prometer estabilidade e a possibilidade de um amor construído sobre bases mais sólidas.

“Sabia muito bem que para essa gente o papel de namorado infeliz de uma donzela ou de uma mulher livre pode parecer ridículo, mas o do homem que persegue uma mulher casada e que tudo arrisca para a seduzir tem algo de belo e grandioso e nunca pode parecer ridículo.”

Liévin e Kitty se casam e iniciam a vida conjugal no campo. O início, porém, é marcado por inseguranças mútuas, ciúmes e desconfianças, revelando a dificuldade de duas personalidades diferentes aprenderem a viver lado a lado. Pequenos conflitos cotidianos mostram que o casamento não é um ideal romântico, mas um processo cheio de ajustes e vulnerabilidades. Com o tempo, Kitty demonstra força e sensibilidade, tornando-se o alicerce emocional da relação. A notícia de sua gravidez inaugura uma nova fase, de maior união e esperança.

Em contraste, a vida de Anna segue um caminho de rupturas. Após recusar o divórcio proposto por Karenin, ela abandona a casa do marido e o filho, partindo com Vronski e a filha recém-nascida para o exterior. A separação do filho se torna uma ferida dolorosa em sua alma, que nem a paixão por Vronski consegue aplacar. No exterior, a vida a dois revela-se menos encantadora do que Anna imaginava: isolados, os amantes percebem que a liberdade conquistada cobra o preço do afastamento social. Vronski, embora dedicado, começa a sentir o peso de ter renunciado à carreira e à posição que possuía em São Petersburgo.

Quando decidem retornar à Rússia, Anna enfrenta a hostilidade de uma sociedade que a julga sem piedade. Enquanto Vronski mantém alguma aceitação em seus círculos, Anna é tratada com frieza e desprezo, vista como uma mulher caída. Essa desigualdade evidencia a hipocrisia das convenções sociais: o adultério masculino é tolerado, o feminino é condenado com exclusão. 

“Eu acho que, se é verdade que cada cabela cada sentença, há de haver tantas maneiras de amar quanto os corações.”

Anna e Vronski, antes unidos pela paixão arrebatadora, passam a viver em meio a tensões crescentes. Vronski, afastado da carreira militar e do prestígio social, sente-se inútil e frustrado, enquanto Anna exige dele atenção exclusiva e não suporta a possibilidade de perdê-lo. O impasse em torno do divórcio torna-se insuportável: sem a dissolução oficial do casamento com Karênin, a filha do casal não pode levar o nome de Vronski, e Anna permanece presa a um vínculo que simboliza sua condenação social. A relação, que parecia libertadora, se transforma em um espaço de desconfiança e ressentimento, onde os ciúmes de Anna e o desconforto de Vronski corroem lentamente o amor.

Enquanto isso, no campo, Liévin e Kitty desfrutam de uma vida conjugal mais estável, embora não isenta de conflitos. Liévin demonstra ciúmes exagerados e insegurança, sinais de sua personalidade atormentada, mas encontra em Kitty uma companheira paciente e afetuosa. A gravidez dela se desenvolve, trazendo uma atmosfera de expectativa e esperança. Tolstói mostra que tanto a paixão quanto o casamento estão longe de ideais românticos: ambos são atravessados por fragilidades humanas, ciúmes, medos e esperanças.

“Vocês, homens, podem escolher livremente, e por isso sabem com clareza a quem amam. Mas uma mulher, obrigada a esperar, com o pudor a que o sexo a obriga, vê os homens sempre de longe e a todos toma por ouro de lei.”

Liévin e Kitty experimentam uma fase de relativa paz: o nascimento do filho traz renovação e alegria, preenchendo a vida do casal com um propósito maior. No entanto, a sombra do ciúme ainda ronda a alma de Liévin, especialmente quando ele conhece Anna Kariênina e se vê impressionado por sua beleza arrebatadora. Kitty percebe essa ameaça silenciosa e, por um momento, revive suas antigas inseguranças. Mas, ao contrário do passado, Liévin consegue refrear seus impulsos, reconhecendo o valor de sua família e da vida que construiu ao lado da esposa. Essa vitória íntima fortalece a união do casal, marcando um amadurecimento emocional e espiritual.

Enquanto isso, Ana e Vronski vivem a dissolução de um amor que, antes arrebatador, agora se encontra envenenado pelo tédio, pela dependência e pelo ciúme. Vronski se sente cada vez mais preso a uma existência que o limita, obrigado a permanecer na cidade em função da espera pelo divórcio que nunca vem. A recusa de Alexsei Karênin em conceder a separação pesa não apenas sobre a filha de Anna, que não pode carregar o sobrenome do pai biológico, mas também sobre a dignidade de Vronski, que se sente impotente diante da sociedade. A frustração e o esvaziamento emocional transformam sua paixão em indiferença.

“Todo aquele que tem uma vida complicada julga ver nessa complicação uma fatalidade que só a ele atinge.”

Anna, por sua vez, mergulha em um abismo psicológico. Abandonada pela sociedade que a condena, afastada do filho que deixou para trás e angustiada com a frieza crescente de Vronski, ela se vê dominada por um ciúme corrosivo, convencida de que o amante já se volta para outras mulheres. Incapaz de reconciliar seus desejos com a realidade, Anna vê seu mundo ruir sob o peso da rejeição social e da impossibilidade de encontrar um espaço onde possa existir plenamente. Diante desse vazio, a lembrança da cena inicial — o jovem que se jogara nos trilhos do trem no dia de sua chegada a Moscou — ressurge como um prenúncio de seu próprio destino. Assim, tomada por um desespero irreversível, Anna entrega-se ao mesmo gesto fatal, lançando-se sob as rodas do trem. 

Após a morte de Anna, o romance se volta para as consequências emocionais e existenciais que recaem sobre os personagens centrais. Vronski, profundamente abalado, sente um misto de culpa e vazio. Sem saber como lidar com o luto e a frustração de uma vida sem sentido, ele decide alistar-se voluntariamente para a guerra nos Bálcãs, quase como uma fuga e, ao mesmo tempo, como uma forma de buscar propósito em meio ao caos.

Enquanto isso, Liévin, que agora vive de forma mais estável ao lado de Kitty e do filho, passa por um processo de amadurecimento intelectual e espiritual. As responsabilidades da paternidade e as exigências da vida no campo o levam a questionamentos profundos sobre o sentido da existência e sobre a fé. Ele vive momentos de dúvidas intensas, mas acaba encontrando, nas pequenas ações cotidianas e na consciência de que a vida tem um valor intrínseco, uma paz maior do que antes.

Anna Kariênina – Conclusão

A narrativa fecha com uma mensagem de reflexão: se para Anna a vida tornou-se insuportável diante da solidão e do julgamento social, para Liévin, a mesma vida, cheia de incertezas, passa a ser aceita como valiosa, mesmo sem respostas definitivas. Essa oposição dá à obra um tom de profundidade, mostrando o contraste entre a destruição causada pelo peso das convenções sociais e a serenidade que pode nascer do reconhecimento da simplicidade e da fé.

Anna Kariênina não termina com a morte de sua protagonista — termina com a vida que continua, com a Rússia que pulsa, com os dilemas que persistem. Tolstói constrói um romance em que cada personagem é um espelho fragmentado da existência humana: Anna, com sua paixão que desafia convenções e a destrói; Vronski, com sua busca por sentido após o amor; Liévin, com sua inquietação filosófica que encontra paz na simplicidade da terra.

A tragédia de Anna não é apenas pessoal — é social, existencial, histórica. Ela é esmagada por uma sociedade que não perdoa o desejo feminino, que exige obediência às normas enquanto celebra a hipocrisia. Mas Tolstói não oferece respostas fáceis. Ele nos convida a observar, sentir, pensar. A entender que viver é escolher entre forças opostas: razão e emoção, liberdade e dever, fé e dúvida. Mais do que um romance sobre adultério, Anna Kariênina é uma meditação sobre o que significa ser humano em um mundo que não cessa de nos exigir máscaras. E por isso, mais de um século depois, seguimos lendo, relendo, e nos perguntando: o que é amar com autenticidade? O que é viver com verdade?

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