Macbett
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Título: Macbett
Autor: Eugène Ionesco
Editora: Temporal
Páginas: 205

Resumo do livro Macbett

Eugène Ionesco foi um notável dramaturgo com raízes culturais duplas, na Romênia, onde nasceu, e na França onde passou parte de sua vida. Estudava em Paris antes da Segunda Guerra Mundial. Com a eclosão do conflito, retornou à Bucareste. Marcado pela guerra e pela sociedade pós-guerra, Ionesco passou, a partir de 1949, a escrever suas primeiras peças. A sua escrita está repleta de significados e reflexões. Ionesco é considerado um dos pais do Teatro do Absurdo, onde além do ridículo das situações mais banais, o teatro representa de maneira palpável, a solidão do homem e a insignificância de sua existência.

Ionesco leu e releu a peça Macbeth durante 18 meses, tomando nota de tudo o que lhe interessava. Largou a leitura e meses depois, retomando suas notas, escreveu Macbett em 25 dias. Segundo Ionesco é preciso que tudo o que é lido o penetre para que tudo o que entrou no inconsciente apareça de modo livre. 

Macbeth, de William Shakespeare, narra a história de um regicídio cometido pelo personagem que empresta o nome à peça – um valente general que havia vencido uma grande batalha – ao ser persuadido por três feiticeiras de que seu destino seria tornar-se rei. Temas caros à Shakespeare, Macbeth trata da ganância pelo poder, da loucura pelos atos cometidos, da ambição, da vingança, da lealdade, e da luxúria.

“Candor – Se eu tivesse sido mais forte, eu teria sido seu soberano sagrado, Vencido, não passo de um covarde e traidor. Tivesse eu ganhado essa batalha! É que a História, em seu curso, não quis. Não passo de um dejeto histórico.”

Esse é também o enredo que forma a linha principal da releitura que Ionesco fez da peça shakespeariana. Contudo, preenchido por sua época (pós segunda guerra mundial), Ionesco seguiu uma tendência adotada em suas peças anteriores. Ele destitui a linguagem de suas funções tradicionais – representação, comunicação e expressão – marcando sua distância em relação ao teatro tradicional e aproximando-se daquilo que ficou conhecido como Teatro do Absurdo.

A tragédia shakespeariana é datada no drama elisabetano e ocorre na Escócia durante a época medieval. Macbett, de Ionesco, no entanto, não tem lugar definido. Por isso, marca sua atemporalidade, podendo ser transportada para todas as eras da humanidade onde a luta pelo poder esteve em jogo. Trata-se de um não lugar, que pode ser transformado em qualquer lugar.

Macbett – História

Glamiss e Candor, generais do Rei Duncan iniciam a peça planejando o regicídio. Repetindo frases como se fossem clones, os generais tramam uma traição. Logo, a batalha tem espaço e milhões são mortos. Duncan colocou a responsabilidade da vitória em dois de seus melhores generais: Macbett e Banco. Para que não restasse dúvida sobre sua vitória, Duncan mandou matar todos os seus opositores que lutaram sob as bandeiras de Glamiss e Candor.

Finda a batalha, Duncan prometeu à Macbett e à Banco os títulos que pertenciam a Glamiss e a Candor, respectivamente. Porém, duas feiticeiras apareceram. Para Macbett, elas disseram que ele deveria dar vazão à sua ambição, pois logo se tornaria Rei, sob o cadáver de Duncan. Para Banco, as feiticeiras profetizaram que ele seria o ancestral de toda a linhagem futura dos reis e príncipes do reino. O Rei Duncan, desconfiado que Banco não havia matado Candor, deu os títulos prometidos somente à Macbett, alçando-o a conselheiro pessoal do Rei. A partir de então, Macbett e Banco passaram a desconfiar da lealdade um do outro.

“Feiticeira – Há coisas que eu conheço, mas não conheço tudo. Até mesmo nosso saber é limitado. Mas eu leio suficientemente em você para entender que a ambição acabou de nascer em seu coração à sua revelia e apesar de todas as explicações que você pode se dar, que são falsas e que são apenas máscaras.”

Ludibriado pelas feiticeiras, que se transformaram em Lady Duncan e em sua aia, Macbett engendrou o plano para assassinar Duncan. Numa cena épica, as feiticeiras transformadas, Macbett e Banco apunhalaram o rei. Macbett coroou-se Rei e transformou Banco em seu principal vizir. Porém, as feiticeiras mostraram a sua verdadeira face, e a verdade surgiu como uma maldição para Macbett, uma punição pela sua ganância. Com o objetivo de aniquilar as profecias das feiticeiras, e talvez mudar o seu próprio destino, Macbett, num ímpeto de fúria, assassinou Banco. Ele não seria mais o ancestral dos futuros reis.

Entretanto, a chegada de Macol, filho de Duncan, trouxe uma reviravolta ao enredo. Macol revelou que ele, na verdade, era filho de Banco com uma das feiticeiras, e que logo após o seu nascimento foi entregue à Lady Duncan para que ela pudesse responder aos anseios do Rei sobre um herdeiro. As profecias, assim, se cumpriram, já que Macbett foi assassinado por Macol, que se tornou o novo Rei. Mas a tranquilidade do reino estava longe de retornar. Em seu primeiro discurso, Macol disse a todos que Macbett era sanguinário, luxurioso, avaro, falso, pérfido, rude e malicioso; mas afirmou que ele, Macol, seria muito pior. Cortaria a cabeça de todos os nobres para usurpar suas terras. Todas as mulheres do reino seriam usadas para saciar seus piores desejos. Todas as riquezas seriam entregues à ele. Concluiu que todos os seus desejos criminosos seriam saciados à custa de todos os meios, lícitos e ilícitos.

No final, somente o bispo, visivelmente desanimado com o que acabara de ouvir, se mantinha próximo à Macol. Procurando a justiça e suplantar a corrupção que tomou conta da corte, Macol se tornou pior que seu pai, Duncan, e até mesmo que seus assassinos, Macbett e Banco. O salvador do reino havia se tornado pior do que seus antecessores. Uma vez no poder, deixou claro o que iria praticar: corrupção, luxúria e ganância. A promessa de um futuro melhor se transformou em névoa e se dissipou pelo ar.

“Lady Duncan – (À Macbett, estendendo-lhe o punhal) Seja firme. Ajude a si mesmo, o inferno te ajudará. Veja em si mesmo como o desejo cresce e como a ambição escondida se revela e te inflama. É com este punhal que você vai matar Duncan. Você tomará o lugar dele junto a mim. Eu serei sua amante.”

Macbett – Conclusão

A morte em Macbett é banalizada. Se na trama de Shakespeare o regicídio é parte da engrenagem para manter o poder, em Ionesco o assassinato toma forma de homicídio. E para a manutenção do poder, o Rei recorre ao genocídio. As guilhotinas se multiplicam na peça. Milhões são mortos, sem culpa ou remorso. O objetivo nunca é o ser humano. Ninguém se importa com o soldado ferido, todos querem saber do resultado da batalha.

O absurdo da linguagem de Ionesco está nas sutilezas da obra. Nas palavras repetidas ao extremo; no limonadeiro que aparece no meio da batalha vendendo uma limonada que cura o medo, mas que é morto por um soldado sanguinário; nas aparições espalhafatosas das feiticeiras; na mulher com um cesto de feira e no caçador de borboletas, que cruzam o palco repetidas vezes. Todos esses elementos desprovidos de significados lógicos para a peça reforçam o vazio. A linguagem permite que se compreenda o suficiente, diante de sua incapacidade de se fazer compreendida.

“Macbett – Jamais, desde Édipo, o destino zombou tanto e tão bem de um homem. Oh! Mundo insensato, onde os melhores são piores que os maus.”

Ionesco expõe, de forma visceral, que não é o poder que corrompe o Homem. O Homem já nasce corrompido. O poder apenas desvela algo que estava escondido pelo véu do contrato social e da conveniência. Essa peça pode ser vista como o drama da busca pela experiência do vazio no espaço da cena. 

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Até a próxima!